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Material Complementar


Educação Ambiental x Invasão Cultural


O Planeta Terra atravessa um período crucial em sua história. A crise que vivemos nos dias de hoje, diferentes das crises do passado, pode não ser passageira. O nosso atual modo de produção exige um crescimento contínuo e ilimitado, em contraposição aos limitados recursos naturais que o sustentam. Essa simples contradição pode resultar não só no esgotamento de diversos recursos necessários a nossa sobrevivência, como também tornar a terra inóspita em função dos resíduos produzidos em uma escala maior do que a possível para a sua reciclagem.

Tais desequilíbrios, se não forem remediados num tempo próximo, ameaçam a sobrevivência da espécie humana e, quem sabe, a sobrevivência de grande parte da vida terrestre.

Neste contexto, a educação ambiental surge como um espaço de debate para que a sociedade faça uma reflexão a respeito das reais causas dos problemas ambientais e suas possíveis superações. Reconhecer, porém, a importância da educação ambiental como possibilidade para a reversão da atual crise ecológica, não pode ser feita sem uma profunda reflexão sobre como a prática educativa deve ser exercida. Enquanto educadores preocupados com a educação ambiental, não é suficiente nos munirmos de idéias e conceitos e simplesmente repassá-los a sociedade. Para pensar e praticar a educação ambiental, não basta saber apenas o que é o ambiente e quais são seus atuais problemas. É preciso também, em igual importância, saber o que entendemos por educação, para não corrermos o risco de não exercê-la.

O que queremos exatamente com a educação ambiental? Um das possíveis respostas é proporcionar ao povo uma tomada de consciência a respeito dos problemas ambientais, tanto numa escala menor (o ambiente que ocupam) quanto numa maior (o planeta como um todo), e que essa tomada de consciência se reverta para o nível da ação. Mas como, então, “levar” o povo à consciência? Como educá-lo?

Desde a institucionalização da educação até os dias de hoje, permanece na maior parte dos processos educativos uma prática que acredita na transmissão do conhecimento. O professor, detentor do saber, fala, e o aluno, que nada conhece a respeito daquele conteúdo, escuta. Para aprender, tudo o que o aluno tem a fazer é, em silêncio, submeter-se à fala do professor. Apesar de algumas teorias críticas da educação, surgidas na década de 60, terem questionado esses pressupostos, percebemos que a transmissão do conhecimento continua sendo uma prática dominante.

Se admitirmos, porém, que o saber é uma construção humana, que ele se constrói, é lógico deduzirmos que ele não pode ser transmitido. O educador Paulo Freire, em uma de suas obras mais importantes, Pedagogia do Oprimido, afirma: “a educação não é uma doação ou imposição – um conjunto de informes a ser depositado nos educandos; mas a devolução organizada, sistematizada e acrescentada ao povo, daqueles elementos que este lhe entregou de forma inestruturada”. Aqui o autor chama atenção para dois aspectos centrais de sua teoria.

Primeiro, ao falar em devolução, Paulo Freire defende a idéia de que é o universo e a experiência dos educandos que deveriam ser fonte primária na busca de temas para serem trabalhados em sala de aula. Ou seja, qualquer conteúdo programático que seja feito apenas a partir da visão pessoal do educador, sem levar em conta a visão dos educandos a quem o programa está dirigido, estará fadado ao fracasso simplesmente por estar profundamente desligado da situação existencial das pessoas envolvidas no ato de conhecer.

Segundo, critica a educação como doação ou imposição, aquilo que ele chama de “educação bancária”, na qual fatos e informações são simplesmente “depositados” pelo professor na mente do aluno. Ao contrário, o autor defende o diálogo entre educando e educador como condição necessária para o aprendizado, ao contrário de uma relação unidirecional onde só o professor tem voz e conhecimento. Sugere, portanto, uma superação da contradição educador – educando: “a educação não se faz de A para B ou de A sobre B, mas de A com B, mediatizados pelo mundo”.

Percebemos, assim, que qualquer que seja a nossa intenção pedagógica, ou qualquer que seja a nossa idéia a respeito dos problemas ambientais e suas possíveis soluções, elas necessariamente devem ser construídas em diálogo com os educandos. Temos que ouvir deles quais são os problemas ambientais que existem em seu ambiente particular, e a partir daí ajudá-los a entendê-los e resolvê-los. Se chegarmos com uma visão a priori, sem respeitar o universo em que os educandos estão inseridos e sem respeitar a sua particular visão a respeito da realidade e de seus problemas, estaremos não só exercendo o que Paulo Freire chamou de “invasão cultural”, como também correndo o risco de praticar uma educação estéril, incapaz de se converter em ações que possam gerar mudanças concretas em nosso ambiente.