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Os cães e o homem: uma história de raça


Na história da civilização humana, duas conquistas foram primordiais para o sucesso do homem primitivo. A primeira delas foi o fogo: dominar a técnica para produzi-lo nos permitiu cozinhar os alimentos e gerar calor para nos manter aquecidos. A segunda conquista pode parecer insólita, mas foi determinante para o nosso sucesso como espécie: a domesticação do cachorro (Canis familiaris). Não é possível imaginar, atualmente, uma sociedade sem fogo e sem cachorros.

Os cientistas apontam o lobo selvagem (Canis lupus) como ancestral de todos os cães. Acredita-se que pequenas matilhas passaram a acompanhar os primeiros grupos humanos em busca de restos de carne, ossos, tendões e vísceras não aproveitadas da caça. Para os humanos, a presença de lobos sem intenções agressivas fornecia certa segurança. Graças à presença dos cães os humanos primitivos puderam dormir à noite sem serem surpreendidos por predadores ou mesmo por outros humanos mal-intencionados. Qualquer movimentação que ameaçasse a segurança das pessoas era prontamente alardeada pelos latidos da matilha de lobos que acompanhava a comunidade. Isto nos permitiu concentrar esforços na caça e na agricultura e ter menos trabalho com intrusos e a animais oportunistas.

Ao longo dos muitos séculos desta história de amizade os humanos passaram a habitar praticamente todos os lugares do mundo, ocupando locais com os mais diferentes climas e relevos. Para tirar melhor proveito da companhia dos cães, os humanos passaram a promover cruzamentos seletivos entre esses animais, escolhendo aqueles indivíduos que apresentassem características mais adequadas para viver em um ambiente específico ou para desempenhar uma determinada tarefa: cães de pelos mais longos para lugares mais frios, ou mais fortes e resistentes para puxar trenós; cachorros com olfato aguçado para a caça ou de porte avantajado para a defesa. Assim, através de sucessivas gerações, características físicas e comportamentais foram sendo artificialmente selecionadas e delinearam as centenas de “raças” caninas hoje existentes no mundo. Mesmo nos dias atuais existem criadores que estão desenvolvendo novas linhagens a partir de cruzamentos de raças conhecidas. Duas características caninas são essenciais para isso: uma prole numerosa, que vai de quatro a oito filhotes; e o baixo intervalo de tempo entre gestações, dado por fêmeas que podem parir duas vezes por ano, sendo que uma mesma ninhada pode ter filhotes de diferentes pais.

O desenvolvimento de raças, entretanto, ocasiona um problema: quase todas as raças “puras”, representadas pelo “pedigree”, apresentam alguma debilidade física ou problema de saúde recorrente. Poodles sofrem frequentemente de epilepsia, cães Pug apresentam dificuldade para respirar e Dogues alemães dificilmente vivem mais do que dez anos. Este é o preço a ser pago pelos repetidos endocruzamentos, ou seja, casamento de cães que sejam parentes próximos entre si.

No Brasil, apesar de existirem cerca de dez raças registradas de cachorros, o mais esperto e resistente de todos é aquele conhecido pela sigla SRD – Sem Raça Definida. O popular vira-lata é resultado de uma incessante miscigenação de dezenas de raças que chegaram ao nosso país trazidas pelos colonizadores europeus. Ao longo de cinco séculos os cães que fugiram ou que foram abandonados por seus donos buscaram sua sobrevivência da maneira que puderam. Caçaram ratos, pombos e pequenos animais selvagens, roubaram alimentos em casas e mercados e, evidentemente, reviraram latas de lixo atrás de qualquer resto de comida, estragado ou não. Vira-latas têm ácidos digestivos poderosos capazes de transformar em nutrientes saudáveis mesmo o alimento mais podre e contaminado. Sem o auxílio direto dos humanos, apenas os indivíduos mais versáteis e inteligentes eram capazes de sobreviver com saúde e deixar descendentes.

A capacidade de comunicação dos vira-latas é igualmente impressionante. Além de emitir mais de dez tipos de sons distintos, esses cães conseguem entender e diferenciar cerca de cem palavras diferentes. Essa característica, mais do que nenhuma outra, tem sido determinante para o sucesso dos vira-latas. Por todos esses motivos, cresce cada vez mais o número de pessoas que, ao invés de gastar grandes quantias em dinheiro comprando um cão de raça, preferem adotar um cachorrinho de rua. Para essas pessoas, raça nenhuma pode ser mais carinhosa que o “viralatês legítimo”.