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Chuvas de verão: problema ou solução?


 

Para quem mora nas regiões sul e sudeste, a chegada do verão pode ser tanto um motivo para comemoração quanto para preocupação. A estação mais quente do ano traz consigo, além de muito calor, chuvas em grande quantidade. Desde o final de 2009 até o início de fevereiro de 2010, diversas tragédias envolvendo chuvas em excesso foram noticiadas. Na Ilha Grande, no litoral do Rio de Janeiro, uma encosta desmoronou e soterrou diversas casas, causando dezenas de mortes. Em São Luiz do Paraitinga, interior de São Paulo, a chuva torrencial fez o rio Paraitinga subir mais de sete metros de seu leito original, inundando e destruindo boa parte do centro histórico da cidade. Muitas famílias perderam tudo o que tinham. Já na metrópole paulista o volume de chuva do mês de janeiro de 2010 praticamente se igualou o recorde histórico.

Muitas pessoas enxergam a chuva como a grande vilã do verão, responsável por morte e destruição. Mas será que a chuva é a verdadeira responsável por estas catástrofes? O renomado geógrafo brasileiro Aziz Ab’Saber defende as chuvas. A falta de planejamento urbano e a negligência dos governantes para com a meteorologia são os verdadeiros culpados por tanto sofrimento e destruição.

A enchente em São Luiz do Paraitinga era um fato lendário: os moradores mais antigos já falavam sobre uma cheia do rio em séculos passados que inundara toda a rua principal. Observando a geografia da cidade, nota-se que ela é construída bem no meio de uma curva do rio – um meandro. Isto significa que, em eras passadas, o leito do rio provavelmente passava bem no meio da cidade. Seria uma questão de tempo até que uma grande cheia extravasasse o leito fluvial e enchesse a várzea, a planície natural de inundação do rio. Já o desastre da Ilha Grande poderia ter sido evitado caso as autoridades competentes não tivessem autorizado a construção de casas e de uma pousada muito próximas da encosta de um grande morro. Com um grande volume de chuva, a camada de solo que repousava sobre um leito de rocha maciça se desprendeu e despencou montanha abaixo, carregando toneladas de terra e rochas.

As constantes inundações em São Paulo são o reflexo de um problema muito maior: a ocupação desordenada e a impermeabilização do solo. Com a cobertura cada vez maior do solo com asfalto e concreto, a água das chuvas não tem para onde escoar e se acumula na superfície. Além disso, o mau hábito da população de jogar lixo nas ruas provoca o entupimento de bueiros e bocas-de-lobo, obstruindo os canais de escoamento das águas pluviais. Outro grande problema é a destruição das matas ciliares, que provocam assoreamento nos rios, fazendo que seu volume aumente demais na época das cheias.

Em um país de clima predominantemente úmido, as chuvas de verão são um acontecimento bastante comum e até mesmo benéfico: são essas águas que encherão os lençóis freáticos e aquíferos, assegurando a disponibilidade de água para os corpos d’água, dos quais se capta a água distribuída à população. Sem as chuvas, sofreríamos – como já sofremos – crises de abastecimento de água e de geração de energia elétrica, uma vez que a nossa matriz energética predominante é a hidrelétrica.

O triste exemplo das tragédias de 2009/2010 nos sinaliza que é preciso pensar melhor o planejamento urbano, evitando a ocupação de encostas, várzeas e demais áreas de risco. A natureza nos supre de seus maravilhosos recursos, mas cobra seu preço quando tomamos atitudes equivocadas.